segunda-feira, 27 de junho de 2011

Com lamentos, Eu

Era meu dia de folga na empresa. O dia sagrado, quinta-feira. Um solzinho regado com frio que implorava qualquer tipo de rendição que envolvesse minha cama e eu. Mas o telefone insistia em tocar. Já poderia sentir o cansaço de uma maratona caso eu levantasse e fosse até a sala só para atender. E se fosse cobrança? E se fosse de novo o carinha chato do bar de sábado tentando marcar uma segunda vez? E se fosse alguém do trabalho me pedindo pra cobrir horário? Deixei tocar. É por isso que não tenho mais celular desde que o meu caiu no vaso da faculdade. Mas naquele dia me arrependi.

Acordei mais tarde, lá por depois do meio dia, liguei a tv e chorei. O jornal transmitia ao vivo o resgate de um incêndio que acontecia num bairro próximo ao meu. Edifício Lisbela, sétimo andar, apartamento 31. Eu conhecia aquele lugar. Morei lá entre 2001 e 2005, depois vendi para um amigo de infância, o Luiz, que tinha acabado de se casar e estava com uma filha por vir. Lembro também da expressão de realização que se via nos olhos dele e da esposa. Sobrava até pra mim, mil agradecimentos e jantares por poder oferecer o apartamento como ninho, repouso, morada para tanto amor que ainda seria modelado entre aqueles poucos cômodos de paredes esverdeadas.

Corri até o telefone para conferir as chamadas perdidas. Era ele, era o Luiz. Tentei ligar desesperadamente e só ouvia o som assustador da caixa postal. Foi assim durante toda a primeira semana. Evitava ler os noticiários para não descobrir o pior. Preferia tentar e tentar, cada vez mais, até que meu amigo finalmente pudesse me atender.

Mas hoje, justo hoje resolvi dar uma olhada na caixinha de correio:

“Não aguentei, minha cara Lis. Meu patrimônio – que um dia também foi seu – foi transformado em cinzas. Meu peito foi transformado em restos. Minha alma dilacera entre lembranças e arrependimentos. Naquele dia saí de casa intrigado com ela, ciúme barato, falta de diálogo, talvez excesso de paixão. Busquei minha filha na escolinha e quando voltei os bombeiros já estavam tentando controlar as chamas. Disseram que ela entrou no banho e esqueceu o gás ligado, o fogo acesso. Mas descrever assim parece cena de um filme qualquer, como aqueles que a gente assistia com o pessoal depois do cursinho na casa dos seus pais.

Ontem Clarinha completou 5 anos, quando foi se deitar me contou que só pediu uma coisa na hora de cantar os parabéns: Papai do céu, que a estrelinha da mamãe brilhe mais forte lá de cima, mas que todos consigam ver, assim como todos percebiam que a felicidade entre a gente era límpida.

Resolvi me mudar com ela, crescer com ela, minha filhinha anda sofrendo mais que eu, que já sofri por tantas outras coisas em tantas outras situações. Ela é linda demais para sofrer.

Prometo visitá-la em breve e renovado. Espero que entenda minha recente ausência. Meu novo endereço mando junto com esta carta, caso você queira nos visitar também.

Mil abraços, Luiz.”

3 comentários:

Anônimo disse...

Sabe o que é? Hoje o dia foi ruim. Aliás, estava ruim até agora. Até eu lembrar que você escreve.
E que eu adoro.

Boa noite, garoto.

Adna Martins disse...

O que o mundo precisa ler e ouvir,está aqui.
Que sorte a minha entrar no blog da reluzente Brenda,ver um comentário que me trouxe até aqui pra saciar a minha alma com o toque das suas palavras.

Laura Neves disse...

Não tenho passado por bons momentos, mas você me remete ao meu tempo bom... Quando as coisas eram simples.